III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação:
O Que o Parque Nacional da Tijuca tem Para Mostrar ao Resto do País
Aproxima-se o III Congresso Brasileiro de Unidades de Conservação a ser realizado em Fortaleza, no Ceará, em setembro desse ano. Nesse sentido, talvez seja oportuno aproveitar o momento para trazer de volta à baila a discussão da sinalização de trilhas em áreas protegidas.
Sabemos que, no Brasil, expressiva parcela de excursionistas experimentados e pesquisadores opõem-se à sinalização de trilhas por acreditar que a medida implicará em aumento da visitação e conseqüente agravamento do impacto ambiental. Experiências com sinalização de trilhas no Brasil e no Exterior, entretanto, relativizam esse efeito. De fato, uma sinalização bem planejada, acompanhada de manutenção periódica reduz o impacto ambiental sobre o terreno, mesmo quando há aumento de visitação.
A primeira premissa para que isso ocorra é que o planejamento não leve em conta apenas o componente direcional da sinalização, mas também o educativo e, sobretudo, o indutivo. Pesquisas de campo já comprovaram que expressiva parcela dos excursionistas tendem a agir como gado: ou seja, seguem a sinalização. Assim, pode-se usar setas para induzir com sucesso ao uso de caminhos menos erosivos, em detrimento de atalhos e opções ambientalmente mais frágeis.
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Erosão pode ser evitada ou mitigada com a adoção de canais de drenagem, colocação de pedras sobre terrenos com deficiência de drenagem (stepping stones), ou mesmo com o realocamento da trilha. Todos trabalhos passíveis de serfeitos com mão de obra não especializada, desde que orientada por funcionário do Parque em questão. Nos casos em que a área protegida é motor de importante indústria turística nas comunidades vizinhas, deveria ser contemplada a possibilidade dela financiar a sinalização e manutenção das trilhas que lhe são a razão de existir.
Nesse sentido, vale relatar um pouco a experiência do Parque Nacional da Tijuca, vivida ao longo dos últimos dois anos e meio.
Até 1998, o PNT não contava com nenhuma trilha sinalizada. Sua trilha principal, para o Pico da Tijuca, estava cortada por aproximadamente 50 atalhos, alguns absolutamente erodidos ao ponto de atingir profundidades de mais de 2 metros. Por ano, perdiam-se, em média nas matas do Parque, por volta de 60 excursionistas. Cada operação de resgate, envolvia até duas dezenas de bombeiros armados de facões a um custo financeiro e ambiental de proporções consideráveis.
A partir de março de 99, de forma a de disciplinar o uso das trilhas do Parque da Tijuca, iniciou-se um processo de sinalização, recuperação e manutenção de trilhas com três objetivos: 1) Reduzir o impacto ambiental nas trilhas e seu entorno. 2) Reduzir a quantidade de pessoas perdidas nas trilhas. 3) Aumentar a visitação nas trilhas sem aumento de degradação, tornando o Parque um instrumento de lazer e de educação ambiental ao ar livre.
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Para atingir esses objetivos foi utilizado um método barato de sinalização envolvendo setas de madeira e tinta. Mais de 200 atalhos foram fechados e mais de 300 obstáculos foram
removidos (a não remoção de um obstáculo (eg. Uma ávore caída sobre o leito da trilha) enseja por parte do excursionista, o alargamento da trilha ou a abertura de uma variante). A sinalização indutiva foi usada exaustivamente de modo a desviar a atenção do usuário para o uso tentador dos atalhos. Todas as bifurcações foram sinalizadas e uma escala de manutenção periódica da sinalização foi estabelecida pela equipe do Parque.
Finalmente, de maneira a aumentar a visitação do Parque, sem aumento de impacto foi pensada a sinalização de dois grandes circuitos: uma trilha circular de 41 quilômetros e uma trilha circular de 20 quilômetros, ambas com rotas de escape para o asfalto a cada quatro quillômetros, em média. Isso sem abertura de trilhas novas, apenas aproveitando trilhas pre-existentes embora sub-utilizadas. Com isso, conseguiu-se reduzir a pressão sobre as trilhas do Papagaio e da Tijuca.
No campo da manutenção e recuperação, foram feitas camas de vegetação em mais de 100 atalhos para estimular a recuperação do solo, outrossim, excessivamente compactado, foram abertos mais de 300 canais de drenagem, foram feitos incontáveis degraus e colocadas centenas de stepping stones, inclusive nas travessias de córregos de modo a estimular a travessia sempre no mesmo local, evitando assim o alargamento da trilha nos pontos em que cruza rios devido às variações do fluxo de água.
Os reultados estão lá e podem ser conferidos por qualquer um que se disponha a visitar o Parque Nacional da Tijuca . No ano de 1999 apenas cinco pessoas se perderam nas matas do PNT e em 2000 e 2001 este número caiu para zero (um recorde na história da Tijuca). Os atalhos da trilha do Pico da Tijuca responderam bem ao seu fechamento e já apresentam sinais encorajadores de rebrota. A sinalização indutiva mostrou-se efetiva, direcionando a esmagadora maioria dos visitantes para as opções de caminho sinalizadas, em benefício de atalhos ou de opções mais frágeis do ponto de vista ambiental. Os índices de visualização de fauna por freqüentadores das trilhas aumentaram significativamente, o que leva a crer que, com o fechamento dos atalhos e o conseqüente confinamento dos visitantes a um único caminho, o estresse da fauna reduziu-se.
Por fim, mas não menos importante, a população aplaudiu fazendo elogios pessoais, ou por escrito (mais de quinhentas manifestações por escrito em dois anos). Mudou o comportamento. A equipe de manutenção do Parque verificou um sempre decrescente índice de lixo novo nas trilhas e uma decrescente taxa de fechamento de atalhos rompidos, bem como de vandalismo.
Talvez, a exemplo da Tijuca, também em outros Parques do País, o interesse da indústria de turismo, da população do entorno e do meio ambiente poderiam se unir em torno de um processo bem planejado de recuperação, manutenção e sinalização de algumas trilhas do Parque.
Pedro da Cunha e Menezes
2002
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