Carlos Pérez Gomar
Abril/Maio de 1999
Presidente do Instituto Pedra da Gávea
*ITB - Quais os objetivos do Instituto Pedra da Gávea?
*CPG - Preservação do patrimônio geológico, natural e paisagístico que a Pedra da Gávea representa, mobilização dos usuários na conservação de trilhas, na preservação da vegetação, na limpeza e, também, na segurança. Valorização dos aspectos históricos e lendários que o lugar guarda. A longo prazo, tentar colecionar um acervo de iconografia, pinturas e outros objetos que se relacionem com a memória da região de São Conrado e Barrinha. A idéia de nos limitarmos somente a estas área, se explica pela necessidade de aplicar toda força num único ponto para conseguir um resultado. Se nos tornássemos uma ONG ampla pretendendo atuar em muitas áreas, cairíamos no lugar comum de outras que acabam fazendo apenas política e marketing.
*ITB - De que forma o IPG vem atuando na Pedra da Gávea?
*CPG - Estamos atuando emergencialmente nas trilhas, tentando sinalizá-las, ainda que precariamente, levantar o lixo deixado por determinados usuários e ensacá-lo, trazendo-o para baixo sempre que possível. Temos definindo a instalação de artefatos de segurança ( cabos de aço e grampos ) em pontos críticos das trilhas, como a Carrasqueira ou a Chaminé CEB, e alguns outros trechos, aliais, como existiam ha 40 anos atrás. Nesses pontos aconteceram 4 acidentes nos últimos 4 anos, 3 dos quais fatais. Defendemos a necessidade de se controlar o acesso às trilhas da Barra, pela estrada do Sorimã e a de São Conrado, pela estrada das Canoas. Estamos fazendo gestões para que isso aconteça.
*ITB - Quais os principais problemas da Pedra da Gávea?
CPG - É o desamor com que alguns usuários utilizam o local sem nenhum compromisso, sujam e incendeiam a mata e vão embora sem contribuir para nada. É muito comum o usuário, não só na montanha como em outros lugares, ao não sentir-se dono, acha que o poder público que deve conservar, limpar e dar-lhe segurança, esquecendo-se que o poder público se inicia quando ele, o homem comum, decide exercer sua cidadania, envolvendo-se positivamente com tudo o que o cerca e o relaciona com a vida. Cidadania hoje é ser cidadão do planeta. Na antiga Grécia chamava-se cidadão ao habitante da cidade-estado, na qual tinha obrigatoriamente que participar. Hoje, poderíamos dizer que o termo define uma atitude de defesa do meio ambiente planetário, ‘‘nossa cidade’’. A preservação do meio ambiente é um campo muito amplo, cada um deve escolher um pequeno trecho desse campo de defendê-lo. Se todos se esforçarem, com certeza teremos sucesso.
*ITB - Como o IPG vê o momento atual no Parque Nacional da Tijuca?
CPG - Oportuníssimo. Nós lutamos pelo que está sendo implantado. Manifestamo-nos publicamente pelo processo de municipalização e instigamos outras entidades a fazê-lo, porque sempre acreditamos que a administração do Parque a nível municipal, daria maior chance de participação ao usuário, educando-o e tornando-o parte do processo de preservação e melhoria do Parque Nacional da Tijuca. O Parque só se salvará se os usuários arregaçarem as mangas e partirem para a ação. Como habitantes desta região, devemos entender que o Parque e seus monumentos naturais não nos pertencem, mas sim, que pertencemos a eles, porque são quase eternos e nós passageiros. Neste momento somos nós que estamos aqui. Assim como outras pessoas deram sua contribuição no passado, agora é nossa vez. O Parque Nacional da Tijuca é a essência do Rio de Janeiro, seus monumentos naturais são a sede de sua memória antiga. Através dele nos comunicamos com a ancestralidade desta região e nos transportamos muito mais longe do que a própria época de fundação do Rio de Janeiro.
*ITB - Alguma atividade prevista para breve?
*CPG - Em abril, pretendemos fazer uma limpeza de grandes proporções na montanha, estabelecer uma sinalização provisória e fazer contenção de diversos trechos das trilhas, que estão muito erodidos. Se possível iniciar um reflorestamento com espécies autoctónes. Mais adiante, queremos iniciar um mapeamento dos vestígios arqueológicos existentes na área, tais como as ruínas de fazendas da época colonial e as estradas calçadas com pé-de-moleque, que se espalham pela área.