APRESENTAÇÃO
Devido à imponência de suas montanhas e à extraordinária riqueza de suas matas, a Serra do Desengano, localizada no noroeste fluminense, inspirou a criação do primeiro parque estadual do Rio de Janeiro, em 1970. Seus 22.400 hectares, que se estendem pelos municípios de Santa Maria Madalena, Campos dos Goytacazes e São Fidélis, abrigam algumas das paisagens serranas mais bonitas do estado, as quais, no entanto, são praticamente desconhecidas da população em geral e mesmo de montanhistas experientes.
Para suprir esta injustificável lacuna, o Instituto Estadual do Ambiente Inea solicitou a elaboração do primeiro guia de trilhas da região, tanto daquelas situadas dentro do parque quanto em seu entorno imediato, de forma a atrair mais visitantes que possam desfrutar de seus atrativos naturais de excepcional beleza, como poços, cachoeiras e cumes rochosos de onde se tem uma vista estupenda que se estende até a Baixada Campista. Desta forma, o Parque Estadual do Desengano passará, enfim, a atender de forma mais adequada a uma das funções sociais de qualquer parque, que é a possibilidade da visitação com fins recreativos. Isto deverá contribuir para o desenvolvimento econômico sustentável de toda uma região que tem sido negligenciada pelos operadores turísticos.
Engana-se quem pensa que estimular a visitação a um parque é contribuir para a sua degradação. Acreditamos fortemente no princípio de que quanto mais pessoas conhecerem nossos parques estaduais, respeitando-se as normas ambientais vigentes, mais ganharemos defensores de sua fauna, flora, ecossistemas e paisagens notáveis. Além disso, a prática tem mostrado que extensas áreas naturais fechadas à visitação facilitam a entrada clandestina dos verdadeiros destruidores do meio ambiente caçadores, palmiteiros, desmatadores cuja atuação é naturalmente inibida nos locais onde há um trânsito regular de visitantes, pelo receio de serem flagrados e denunciados.
Para elaborar o guia Trilhas do Parque Estadual do Desengano, o Inea convidou o Instituto Terra Brasil, uma instituição respeitada e com experiências bem sucedidas, como o Guia de Trilhas do Parque Nacional da Tijuca (na cidade do Rio de Janeiro), hoje uma referência para quem deseja se aventurar nos caminhos de um dos mais conhecidos e visitados parques nacionais brasileiros.
Ocorre que, desta vez, o desafio é muito maior. Afinal, no Parque Nacional da Tijuca o trabalho consistia em mapear e apresentar em um guia impresso, de forma clara e ordenada, trilhas muito bem definidas, que recebem um fluxo regular de visitantes e cuja existência é do pleno conhecimento dos clubes de montanhismo cariocas há décadas. No caso do Desengano, falamos de trilhas que, salvo algumas exceções, receberam pouquíssimas visitas e que tiveram que ser quase todas reabertas, uma tarefa árdua para a qual contamos com o apoio de um dos mais experientes grupos neste campo em todo o país, vinculado ao quase centenário Centro Excursionista Brasileiro primeira agremiação do gênero na América Latina. Assim, a confecção deste trabalho foi ela própria uma aventura, registrada com bom humor no making-of que apresentamos ao final da publicação. Além disso, o projeto envolveu a atualização da base cartográfica do parque, o mapeamento com GPS de suas principais trilhas e a criação de um banco de imagens, para futura utilização pelo Inea.
Foi muito importante, ainda, o envolvimento da população local e também da Prefeitura Municipal de Santa Maria Madalena, cidade onde se localiza a sede do parque. Esta, além de oferecer todo o apoio para a elaboração do guia, ainda sugeriu a inclusão, no mesmo, de algumas trilhas de curta duração fora da unidade de conservação, mas de grande apelo local e, consequentemente, de potencial interesse para visitantes, o que contribuiu para tornar o trabalho mais completo e abrangente. Desta forma, pretendemos que o Parque Estadual do Desengano se converta em um verdadeiro vetor de desenvolvimento regional, alavancando a criação de mais e melhores empregos do que aqueles proporcionados por outras atividades tradicionais de ocupação do solo rural, como a pecuária ou a agricultura, sempre mais difíceis e menos rentáveis em áreas com uma aspereza orográfica tão acentuada como é o caso do Maciço do Desengano.
Por fim, cumpre registrar que esta publicação não teria sido possível sem o generoso apoio financeiro da Anglo American e da LLX uma empresa do Grupo EBX, ambas do ramo da mineração, recém estabelecida na região e que acreditaram na importância de nossa proposta de estimular a visitação consciente de uma de nossas mais importantes unidades de conservação ambiental.
Esperamos, então, que este guia atinja a sua finalidade, atraindo mais visitantes aos três municípios que são a porta de entrada para o Parque Estadual do Desengano e, ao tornar os atrativos naturais aqui enfocados mais conhecidos, aumentar a rede de proteção a esta verdadeira joia da Mata Atlântica fluminense.
Bons passeios!
André Ilha
Diretor de Biodiversidade e Áreas Protegidas do Instituto Estadual do Ambiente Inea
O PROJETO
O alcance do projeto vai muito além da produção de um guia de trilhas. A atualização da base cartográfica do parque, o mapeamento com GPS das principais trilhas, a elaboração de mapas de precisão, a montagem de um banco de imagens inédito, o desenvolvimento do ecoturismo e o envolvimento das comunidades, são alguns dos benefícios que o projeto trará para todos os envolvidos e para a região.
Para realizar o mapeamento e a documentação fotográfica, foi formada uma equipe de montanhistas, fotógrafos, bióloga e guias de ecoturismo. Trilhas que só foram percorridas pouquíssimas vezes foram reabertas, travessias foram refeitas e, com o apoio das comunidades locais, a equipe formou um banco de dados único para o guia “Trilhas Parque Estadual do Desengano”.
O Instituto Terra Brasil - ITB se sente honrado com o convite do Instituto Estadual do Ambiente INEA para executar esse projeto, o primeiro guia de uma série sobre os parques estaduais do Rio de Janeiro. Com a experiencia de já ter produzido o primeiro guia de trilhas de um parque nacional brasileiro (em sua 2ª edição), o convite foi um reconhecimento ao nosso trabalho.
Juntos, ITB e INEA, formaram um time de profissionais extremamente competentes e dedicados, com o compromisso de desvendar para o público uma região muito pouco conhecida e rica em recursos e belezas naturais.
Em apenas 24 dias, foram mapeados e fotografados uma área de mais de 224 km², resultando no mapeamento de cerca de 90 km de trilhas e na produção de mais de 7000 fotos.
Com a coordenação técnica de André Ilha e Patrícia Figueiredo de Castro pelo INEA e tendo a participação de Cláudia Bessa (bióloga, montanhista, GPS e fotógrafa), Francesco Berardi (montanhista e o principal conhecedor da região), Thiago Haussig (montanhista, fotógrafo, GPS e guia de ecoturismo), Bruno Morais (fotógrafo e guia de ecoturismo), Eduardo Lage Santos (produtor e fotógrafo) e Denis Gahyva (um dos mais experientes cartógrafos do RJ) e o apoio da equipe do Parque Estadual do Desengano, a fase de levantamentos de campo foi concluída, passando agora para a montagem do guia, que contará com o projeto gráfico de Paulo Felício.
Em breve estaremos lançando o guia “Trilhas Parque Estadual do Desengano” e dividindo com o público o prazer de explorar uma das regiões mais belas e desconhecida de nosso estado.