 Superpopulação de Quatis na floresta A palavra “quati” que dá nome ao animal, vem do vocabulário tupi-guarani e quer dizer cuá de cuara ou buraco e tim, de nariz ou focinho que significa em outras palavras, o que mete o focinho nos buracos, mais precisamente, o “fuçador”. Ninguém como os índios que aqui viviam para definir melhor este curioso animal. Os quatis pertencem ao gênero Nasua e a família dos Mustelídeos, parentes próximos do mão-pelada ou guaxinim, existem espécies que vivem aos bandos como os da Floresta da Tijuca, e outras espécies mais solitárias. Tem o hábito de fuçar as bromélias em busca de alimento, coisa que o fazem com incrível rapidez sem se espetar ou cair. Os contrafortes de Pico da Tijuca com suas inúmeras bromélias fazem um habitat ideal para esses animais, que antes eram vistos também na Pedra da Gávea. É um dos maiores predadores da nossa floresta (PNT), pois além de fuçar o chão com suas garras, também é capaz de escalar as árvores mais altas atrás de bromélias. No Parque o seu cardápio inclui, minhocas, lacraias, caranguejos, aranhas (adora caranguejeiras), rãs e pererecas, ovos e filhotes de aves, cobras, mel, frutos, raízes e mais alguma coisa que encontra andando pelo seu caminho. O quati é protagonista de muitas estórias, algumas engraçadas, como a que diz que um caçador viu na árvore um grande bando deles e ao atirar com sua espingarda, todos caíram no chão. Entusiasmando, o caçador chegou ao local e aí veio a decepção, não havia nenhum quati. É comum que ao ouvirem um grande estampido, todos se joguem ao chão independentemente de serem atingidos. Outra se passou comigo. Um amigo criou uma fêmea de quati desde filhote, e construiu um viveiro para coloca-la posteriormente, mas colocando-a lá ela não se adaptou ficando muito triste. Então esse amigo retirou a tela do viveiro deixando-a solta, mas ela não quis mais fugir permanecendo lá no viveiro durante mais de dois anos. Mesmo tendo a chance de fugir, optou ela por permanecer, recebendo alimento, carinho e segurança do dono e quando colocada numa árvore, voltava para o cativeiro. Apenas um detalhe me impressionou nisso tudo, o quati não é animal domesticável, guardando os seus instintos selvagens, fato que já foi relatado por outro amigo que também criou um e teve que soltá-lo na natureza, aliás, esse é o melhor local para todos os animais que nela nascem. Atualmente na Floresta da Tijuca, bandos de até cinqüenta quatis são vistos de uma só vez. Isso passou a ocorrer depois da gestão de Pedro Cunha e Menezes/Luiz Otávio, que proibiram a presença de cães dentro do parque, inclusive um que morava dentro, e que era visto perto do Restaurante Os Esquilos, sua especialidade, para variar, era caçar esquilos. Embora o fato seja um desequilíbrio da natureza, é animador ver que nós podemos favorecer a natureza com pequenas atitudes e a compreensão da população. Os cães são os melhores amigos do homem, mas os maiores inimigos dos animais da floresta, verdadeiros exterminadores. Assim como os homens matam pelo prazer de matar, eles também e, na maioria das vezes são apoiados pelos seus donos a quem imitam e que não sabem que o animal corre risco de contrair doenças como a filariose, toxoplasmose, entre outras. Muitos cães saem das casas vizinhas à floresta e fazem incursões de caça, cerca de até dois quilômetros mata adentro, vão sem os seus donos e quase sempre aos pares independentemente de raça e tamanho. Ao atacarem desferem o bote ao mesmo tempo, logrando quase sempre êxito, pois sempre um deles atinge a vítima por trás. Dessa forma, acabam exterminando da periferia da floresta animais como pacas, cutias, tamanduás, gambás, tatus e muitos outros. Apenas o ouriço consegue às vezes graças a seus espinhos escapar desses ataques, até porque também é bom escalador e diante do perigo sobe pelas árvores. Além da ausência de predadores naturais na área, o excesso de quatis na Floresta da Tijuca também pode ser explicado pelo aumento de oferta de alimento, principalmente através dos visitantes de fins de semana. Segundo Afonso, do Grupo de Bandeirantes, que conhece a floresta há anos e faz trabalhos voluntários dentro do parque, os churrasqueiros costumam dar alimento aos quatis para agrada-los, além de deixarem lixo comestível no local, o que acaba também servindo de alimento aos animais. Esse gesto tão inocente põe em risco dezenas de outras espécies, principalmente aves e crustáceos, que são atacados pelos quatis durante os dias de semana quando não há visitantes e a oferta de alimento fácil é reduzida. É necessário conscientizar os visitantes através de placas além de fazer campanhas educativas no sentido de não dar comida aos animais, assim como não jogar lixo nas trilhas ou fazer despachos. Os animais atingidos pelos quatis no desequilíbrio gerado pelo homem são importantes para a saúde da floresta, principalmente no transporte de sementes. O mesmo problema acontece também em várias partes da cidade com o sagüi, quando lhe damos alimento. A soltura de lobos guará seria uma experiência interessante, talvez não tanto para o lobo, mas pelo lado científico e pelo propósito de ocupar o espaço existente de um predador semelhante ao cão aumentando a biodiversidade do local. Poderiam ser também lobinhos ou raposas. Animais que existiam há alguns anos atrás na floresta, mas que inexplicavelmente sumiram. Para que haja o remanejo dos animais para a área, é necessário antes que as pessoas participem da proposta de não alimentar os animais, sejam eles quais forem, pois introduzir qualquer animal em tais circunstâncias seria coloca-lo nas mesmas condições da problemática atual, ou seja, eles acabariam se tornando dependentes da alimentação dos visitantes e do lixo deixado pelos visitantes, virando verdadeiros mendigos. Falta ainda ressaltar que os quatis não são domesticáveis, são excelentes mordedores e podem com suas garras ferir algum visitante imprudente que esteja em contato direto com eles. Erico Dalmau - Trabalha com educação ambiental e E-mail:ericodalmau@aol.com.br |