Papagaios





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Papagaios em suas terras

Relatos dos primeiros europeus que aqui chegaram, faziam referência à variedade de aves coloridas de garras e bicos aduncos, semelhante às de rapina, algumas bem próximas “que embora não sejam domésticas, encontram-se mais comumente nas grandes árvores existentes nas aldeias do que na mata”.

Por muito tempo nosso país se chamou “Terra dos papagaios”, pois assim o era, tal a quantidade de psitaformes que enfeitavam e alegravam nosso espaço aéreo, e impressionavam a todos que aqui chegavam.

Através desses relatos podemos reconstituir em parte a fauna alada existente naquela época e hoje avaliar os impactos causados pela ocupação humana aqui ocorrida principalmente na baixada.

Podemos dizer que existiam três a quatro tipos de papagaios e outros três tipos de araras entre elas a “maracanã nobre” (Diopsittaca nobilis), a “Canindé” (Ara ararauna) e a “Vermelha” (Ara chloroptera).

Atualmente, das araras resta apenas a maracanã nobre (a primeira das três), que habitualmente é vista em bandos de até 25 indivíduos ou mais, na periferia da floresta e muito próximas das casas em varias partes.

Entre os papagaios podemos ver bandos de até 10 indivíduos do “papagaio do mangue” (Amazona amazônica), e entre eles às vezes um “ajurú” (Amazônica aestiva), possivelmente fugido de cativeiro, também chamado “papagaio verdadeiro” (ajurú quer dizer, que fala como gente), que segundo o já falecido professor Helmut Sick (maior ornitólogo que tivemos), não é desta região. A “maritaca” (Pionus maximiliani) é vista freqüentemente aos casais ou em pequenos bandos na floresta alta dentro do PNT, e às vezes procura a proximidade das casas dos homens para dormir, voltando bem cedo para a floresta.

Outros tipos de papagaios parecem freqüentar nossas florestas como o “chauá” (Amazona Rodhocorytha), que é citado por Sick como nativo desta região e é visto também em cativeiro, provavelmente capturado nas proximidades do cativeiro.

Écomum que essas aves durmam nos quintais próximos as casas dos homens fugindo de predadores da floresta. Com esse hábito, encontramos diversos tipos de periquitos como a “jandaia” (Aratinga solstitialis) (Jandaia quer dizer, acostumada ao indaiá), o “periquito rico” (Brotogeris tirica) a “tiriba” (Pyrrhura cruentata). Outro como a “caturrita” (Myiopsita monacus), são vistas nas ilhas da baia de Guanabara, mas nunca as vi na floresta alta, parecendo limitarem-se somente a esta faixa litorânea.

Os papagaios são canhotos na sua maioria apoiando-se com a pata direita, alimentam-se de sementes principalmente de leguminosas como, angico, jacaré, canafístula, garapa, tamboril, ingás e de outras como ipê cinco folhas, e outras como, camboatás, muricis, cedros, jequitibás, sapucaias, chichás e até castanhas de caju, fato que me impressionou, quando morei em Goiás alguns meses. Lá existem bandos de “maracanãs” como aqui e devastavam as castanhas de caju enquanto o fruto ainda esta pequeno, sem que sobre uma castanha na planta. Por isso araras e papagaios de vez em quando necessitam comer um pouco de terra alcalina para neutralizar a acidez destas plantas.

Costumam freqüentar eucaliptos para retirar essência da base de suas cápsulas que o fazem com extrema habilidade. Gostam também de roerem o talo das mangas verdes para se lambuzarem de sua essência, não se importando o que acontecerá com fruto depois disso, que geralmente cai no chão intacto.

Por segurança alimentam-se em silêncio, provocando somente ruído com a chuva de farelos de sementes que caem sem parar até que estejam satisfeitos, somente depois disso iniciam a algazarra habitual.

Não temem aves de rapina, disputando com elas o mesmo espaço aéreo, principalmente se forem do mesmo tamanho, pois confiam no seu bico e suas patas com unhas mortalmente perfurantes, embora nunca as utilizem para este fim, pelo menos que se saiba, apesar de poucas espécies comerem proteína animal.

Para a maioria dessas espécies, as palmeiras representam importante papel em sua alimentação. A extinção de diversas palmeiras da baixada pela ocupação humana, limitou a presença delas nessa região. Existiam sabidamente na baixada e nos estuários, o tucum, a jacitara, o palmito jussara, entre outras pequenas palmeiras chamadas guaricangas. Já o geribá, que foi reintroduzido por Burle Marx no paisagismo, esta atraindo de volta principalmente os papagaios nativos o que nos dá esperanças.

Com o aumento dos papagaios, acredito ser possível também repatriar as araras que um dia fizeram parte junto com o Pão de Açúcar de nossa paisagem, aposto todas minhas fichas nisso.

A reintrodução do “indaiá” (Attalea dúbia), da “macaúba” (Acrocomia aculeata) e do “palmito Jussara” (Euterpe edules) pode representar a volta das araras “Canindé” e da “Vermelha” aos nossos céus.

Fonte:

Helmut Sick, Ornitologia Brasileira.
Jean de Lery, Viagem á Terra do Brasil.
Erico Dalmau

5/2005

Erico Dalmau.
Trabalha com reflorestamentos ecológicos.