Jaqueira



Anelamento da jaqueira feito por um dos voluntários do PNT

A retirada da casca impede a passagem da seiva...

causando a morte aos poucos da árvore

Os frutos da jaqueira são alimentos para várias espécies da fauna



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A jaqueira, problema ou solução

Artocarpus heterofolia é um dos nomes científicos dessa magnífica árvore da família das Moráceas que é originária da Península do Sião. Pode atingir 20 metros de altura e até um metro de diâmetro, produzindo em média 90 frutos por árvore no seu estado normal.

Suas flores são o próprio fruto, sendo que a masculina morre após a fecundação que é feita por insetos. Cada bico da jaca representa um gomo com uma semente, nem todos bicos são férteis, fazendo com que os gomos fecundados ocupem o espaço dos outros, tornando os gomos maiores.

Da jaqueira tudo se aproveita, os gomos (ou favos) são ricos em açúcar, vitaminas do complexo B, e no período do verão alimenta tanto o homem como animais da floresta. Suas sementes cozidas são comestíveis, ricas em amido. Da casca dos galhos, podemos fazer cordas muito flexíveis e resistentes. Apenas seu látex abundante ainda carece de utilização, merecendo um estudo mais aprofundado, mas que pode ter utilização industrial, já que com pó de enxofre se vulcaniza tornando-se num material semelhante ao baquelite.

A madeira de densidade 0,66 (Eurico Santos), assemelha-se ao mogno e tem a particularidade de não oxidar os metais, o que a torna útil na utilização da indústria naval (Pio Corrêa), especialmente as partes curvas que são aproveitadas para o cavername das embarcações.

Na floresta seus frutos alimentam, no período que vai de novembro a fevereiro, uma infinidade de animais como micos, macacos, quatis, aves, gambás, lagartos, e muitos outros. As suas sementes alimentam roedores como a paca, o esquilo e o ouriço que acabam sendo de certa forma os únicos predadores da planta na natureza.

A falta desses predadores, a ação do homem e dos cães domésticos na floresta que caçam os predadores naturais da jaqueira, acabaram contribuindo para a proliferação excessiva das árvores, principalmente na área Sul do PNT, na Pedra da Gávea (Estrada das Canoas), Silvestre, Cosme Velho, Parque Lage e na Estrada Dona Castorina.

Mesmo que importássemos algum animal com a finalidade de combater a jaqueira, como por exemplo, catetos, esse processo se daria em longo prazo e a proliferação desses animais seria proporcional ao alimento que as jaqueiras produzissem, havendo possivelmente ao final do verão um excesso desses animais em desequilíbrio.

A predominância das jaqueiras vai se acentuando a medida que as árvores centenárias da mata nativa vão caindo e são substituídas pelas inúmeras jaqueiras novas. Estas por serem humbrófitas, aguardam sua oportunidade na sombra para ocuparem o espaço iluminado deixado pela outra árvore que caiu.

Devido a grande quantidade de frutos que a jaqueira produz, o corte seletivo delas não representaria risco para a fauna, pois os animais têm algumas poucas árvores prediletas da qual se alimentam. O paladar desses frutos escolhidos muitas das vezes para nós não é dos melhores.

A oferta de alimento através do fruto da jaqueira pode favorecer a reprodução de animais predadores como o sagüi, o macaco prego, o gambá e o quati, no período do verão, animais que em superpopulação promovem um desequilíbrio brutal na natureza no período do inverno quando o alimento é mais escasso. Esses predadores, na falta de comida, alimentam-se de outros animais e plantas, causando danos muitas das vezes irreparáveis a certas espécies ameaçadas de extinção.

Na verdade não podemos esquecer que o homem é o causador de todo e qualquer desequilíbrio na natureza. A jaqueira pela quantidade e valor nutritivo dos frutos que produz, pode ser utilizada na alimentação humana, evitando que alguns hectares sejam desmatados para a produção de alimentos. Sua madeira pode servir para a confecção de móveis evitando a utilização de madeiras nobres das nossas matas cada vez mais pobres.

Devemos lembrar da jaqueira não como um problema, mas sim numa solução, ainda mais quando falamos em atividades economicamente sustentáveis e da falta de investimentos no país. Todos países gostariam de ter este tipo de problema, ou seja, alimento e madeira que a natureza nos disponibiliza em abundância.

Erico Dalmau.