Nem amigas, nem inimigas





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COBRAS NO PARQUE

Atormentando nossa imaginação desde os princípios dos tempos, as cobras são capazes de paralisar as pessoas que nem mesmo estão perto dessa ameaça, ou seja, ‘‘ não vou porque tem cobra’’. Porém, elas são muito mais vítimas do que nós, afinal, nós é que estamos entrando na casa delas e as ameaçando.
As cobras não atacam se não forem provocadas nem sentirem-se ameaçadas, por isto devemos ser cautelosos em seu ambiente, pois é muito fácil passarmos por elas sem percebê-las, mas ela pode entender isso como uma ameaça e atacar para defenderem-se.
Para evitarmos esse encontro desagradável, basta seguir com cuidado, lembrando de algumas dicas.

Cobras sem pressa

Foi num mês de agosto que por duas vezes cruzei com dois tipos de jararacas diferentes, correndo numa delas grande risco de ser picado, pois esta, estava entre os pés, num espaço de apenas um palmo entre eles, de tênis e sem meia. Por sorte ela iniciava a retirada quando passava por cima dela, normalmente ela teria picado sem hesitar. Esta espécie chamada de “jararaca preguiçosa” (Bothrops jararaca) pela sua lentidão de movimentos e pelos seus hábitos sedentários é uma das espécies mais traiçoeiras, pois faz “mimetismo”, confundindo-se com a vegetação local. Quando em cima do jornal acentua o contraste de seu desenho simétrico em forma de trapézios, no barro vermelho, se tornam avermelhadas, junto ao verde tornam-se marrom oliva. Mede em média de 90 a 110 cm de comprimento, é fina e esguia. (Foto1)

Apesar de lenta, ao desferir o bote é tão rápida que os olhos desatentos às vezes não a vê. Vive onde há aparente escassez de água, como alto de morros, mas sempre próximo de bromélias onde podem encontra água com relativa freqüência. Não gostam de barulho embora sejam surdas, sentem as vibrações do solo e o calor emanado pelos corpos animais.

Segundo um amigo, agosto é o mês das cobras, especialmente no dia de São Bento. A explicação para este fato pode estar associada á necessidade dos predadores reproduzirem-se no inverno pouco antes das demais espécies que o fazem na primavera, desta forma os filhotes encontrarão fartura de caça na primavera, com maiores chances no verão, portanto mais preparados para enfrentar a escassez de alimento que virá no inverno. Isso também acontece com gaviões como o carijó que se acasalam bem antes da primavera.

O mês de agosto seria quando as fêmeas necessitariam do calor do sol para chocarem seus ovos em seu interior, daí serem mais vistas nessa época à beira dos caminhos normalmente em cima de uma pedra ou moita expostas ao sol, mesmo correndo risco de serem caçadas pelos seus diversos inimigos, entre eles aves diversas além das de rapina, quatis, furões e os homens.

A segunda cobra (Foto 2) que encontrei no mesmo mês de agosto, tinha mais de um metro e estava no caminho das almas antes de cruzar o rio, tinha pouco mais de um metro de comprimento, é também conhecida como jararaca de “barriga amarela” ou “jararacuçu” (Bothrops atrox) acredito ser essa a espécie, pelas dimensões e pelo detalhe da barriga totalmente amarela, já que a B. jararacuçu tem o ventre profusamente manchado de negro e desenhos mais contrastados nas laterais ) pode chegar a 1,40 metros de comprimento ou mais e é o segundo tipo de jararaca mais encontrado na região. Encontrei uma pele da mesma espécie na subida da Serrilha do Papagaio, próximo à Pedra João Antônio com aproximado comprimento de 1.10m.

Seus locais preferidos são os caminhos por onde os animais, que fazem parte do seu cardápio transitam, seja próximo dos rios ou nas gargantas entre dois morros que dividem dois rios. De tempos em tempos, animais cruzam essas gargantas por causa da mudança de posição do sol, ou por mudança da estação, do local mais seco para o mais úmido ou vice e versa. Podem permanecer por meses num local sem serem percebidas, desde que haja abrigo, água e alimento, para que estejam satisfeitas.

Às vezes atraímos esses indesejáveis vizinhos para junto de nossas casas, colocando alimento em excesso em caçambas para cães, gatos, passarinhos ou galinhas. As sobras desse alimento atraem ratos, que atraem por sua vez cobras peçonhentas para este local.

O veneno das cobras na verdade são peçonhas, só atuam quando injetadas na circulação sanguínea. Cada cobra tem não uma, mas varias substâncias que provocam uma grande destruição de células provocando a liberação de histamina e causando o choque anafilático que leva à morte.

A peçonha no caso das “jararacas” provoca uma forte reação hemorrágica e destruição de tecidos, ocorrendo a morte em 6 horas. Na da “cascavel” ocorre parada cardio-respiratória e a morte ocorre 2 horas após a picada. No caso da “coral verdadeira”, ocorre a parada cardio-respiratória e a morte ocorre em 30 minutos, é o mais potente, e também o menos freqüente entre os acidentes por causa da dificuldade de inoculação de seu aparelho bucal.

Os indígenas utilizavam diversas plantas em caso de “envenenamento” por cobras, um grupo delas pertence a varias plantas de duas famílias botânicas Piperáceas e Rutáceas conhecidas como “jaborandi”, essas plantas encerram uma substância, a pilocarpina que atua provavelmente como um antihistamínico, reduzindo os efeitos devastadores da histamina na circulação sangüínea, provavelmente evitando a perda sangüínea que ocasiona o choque anafilático. Elas atuam também externamente como anestésico, já que no caso dos acidentes por “bothrops” há intensa dor e sensação de queimadura no local da picada.

O jaborandi é também utilizado para dores de dente, tônico capilar, febrífugo e a pilocarpina no tratamento preventivo do glaucoma na forma de colírios.

Encontramos a coral verdadeira (Micruros coralinus) em vários lugares da floresta, sua dentição pouco desenvolvida para a inoculação de peçonha, refletem os poucos acidentes provocados por essa espécie, ao encontra-la, é bom que tenhamos prudência para que nenhum acidente aconteça, é uma espécie mansa, dificilmente picando a não ser quando maltratada. Vive em baixo da terra onde se alimenta, aparecendo ocasionalmente quando o solo está muito encharcado ou quando cai de um barranco cavado pelo homem.

Outras cobras peçonhentas encontradas no PNT, provavelmente a “jararacuçu” (Bothrops jararacuçu) ou “surucucu tapete”, confundida com a “surucucu pico de jaca”. Pode chegar a 2,20 m de comprimento, é encontrada em locais úmidos de mata alta.

Também a urutu (Bothrops alternata), esta vista na estrada entre a Vista Chinesa e a Mesa do Imperador. Inconfundível pela sua largura e pelo desenho em forma de coração invertido é uma cobra que inocula grande quantidade de veneno, havendo o ditado no interior de que “quando ela não mata, aleija” quem for picado. Felizmente parece endemicamente restrita a esta região, pois seus locais de ocorrência são a beira dos grandes rios e lagos, onde aguarda sua vítima sem precisar deslocar-se por grandes distâncias. Referências bibliográficas mencionam sua ocorrência em locais altos longe de rios e lagoas, conferindo com o nosso caso. A explicação para isso seria o fato de que estes animais vivem em função do seu alimento, tendo abrigo e água, seria perfeitamente possível a que a espécie ali permanecesse vivendo satisfatoriamente.

Para sabermos se uma cobra é venenosa logo de início, é muito difícil. Primeiro pelo susto que levamos, a vontade que temos é de nos afastarmos o mais rapidamente possível dela. Mas se conseguir dominar esse medo, haverá chance de isso acontecer.

Lembre-se inicialmente de que 70% das cobras não são venenosas e procure manter a distância segura sabendo que o seu bote é apenas um terço do seu comprimento. Mantenha seus movimentos o mais lentamente possível até ficar totalmente imóvel e pronto. Agora é só ficar observando que ela tem mais medo de você do que você dela, e irá afastar-se assim que puder.

Se ela for exageradamente cabeçuda, com certeza é venenosa e é fêmea, pode apresentar trapézios seqüenciados nas laterais e balançar a cauda, como a de uma lagartixa que foi cortada. Aliás, todas as cobras peçonhentas balançam a cauda quando estão estressadas.

Se as suas escamas forem lisas sem chanfro, têm escamas grandes na cabeça e movimentos rápidos ao fugir, aspecto esguio, esta provavelmente não é “venenosa”.

Existem muitas com desenhos parecidos com as jararacas que não são peçonhentas. Existem outras como as caninanas com fama de transmitirem doenças como se fosse algum tipo de veneno, mas que na verdade são infecções provocadas pela mordida do animal.

O livro “O Ofidismo No Brasil” de Marcelo Silva Junior, edição de 1956, conta uma história, para mostrar como o tema é um mito ainda em muitas regiões.

“Aconteceu com a minha comadre, a cobra subiu pela sacada mamou no peito dela e botou o rabo na boca da criança”. Essa história é desmentida categoricamente pelo autor do livro, simplesmente pelo fato das cobras não poderem mamar, assim como os pombos também não podem, portanto a historia que atravessou meio século e que ainda assim é repetida como se fosse hoje, tem 100% de chances de ser mentira. Ela sobrevive por que alguém quer impressionar um leigo no assunto, que se mostra assustado com o animal, e impressionado acaba repetindo para outro, que a repete para outro.

Existem diversos outros tipos de cobras no PNT como jibóias, “verdes”, “cipós”, “cobras da terra”, “nova” e etc..., algumas agressivas como a “caninana”, mas que não são peçonhentas. Contudo, qualquer mordida animal deixa bactérias e saliva contendo enzimas digestivas, que podem inflamar os tecidos no local.

Uma vez vimos uma que tinha aproximadamente 25 cm enrolada em um galho de um arbusto na altura do peito, perto da Represa dos Ciganos. Era uma espécie rara de colubrídeo (família não venenosa de cobras), magra, parecia estar em estado letárgico como dormindo e se assemelhava a uma jararaca.

As cobras de movimentos mais lentos geralmente são as mais “peçonhentas”, enxergam pouco e o seu “veneno” é a garantia de sua sobrevivência na natureza. Estas na verdade são mais vítimas no meio em que vivem do que vilãs, a peçonha é necessária para que sua digestão seja feita, e desferem o bote quando estão em perigo e logicamente quando irritadas intencionalmente por um idiota que concorre como prêmio ao soro antiofídico.

Em caso de um acidente o soro “específico” é o melhor remédio (antielapídico, anticrotálico ou antibotrópico), na dúvida o “antiofídico” deve ser aplicado. Na medicina popular varias plantas podem ser utilizadas, algumas sudoríficas, outras diuréticas, ou antitérmicas, ou até purgativas, mas nenhuma dá garantias de um resultado tão eficaz como o soro contra a peçonha, desenvolvido por Vital Brasil.

Sempre que caminhamos na floresta ou até fora dela, devemos nos lembrar que nossa imprudência é o nosso maior perigo. A natureza nos ensina que há limites para tudo. Se aprendermos essa lição, saberemos caminhar com passos seguros respeitando nossos limites e a biodiversidade das espécies.

Bibliografia:
Marcelo Silva Júnior, O Ofidismo no Brasil.
Erico Dalmau
5/2005

Cobras encontradas no Parque Nacional da Tijuca

Cobra Jararaca (Bothrops jararaca), Cobra Jararacuçu (Bothrops Jararacuçu), Cobra Jararaca-preguiçosa (Bothrops Jararaca), Cobra-coral-verdadeira (Micrurus corallinus m. lemniscatus), Cobra-coral-verdadeira (Micrurus Corallinus), Cobra-coral-falsa (Erythrolamprus aesculapii), Cobra Caninana (Spilotes pullatus maculatus), Cobra-cipó ou Acutimbóia (Chironius sexcarinatus), jiboia verdadeira e outros.


Prevenção é o melhor antídoto


A integração à natureza exige alguns cuidados. Certas espécies da flora e da fauna podem causar danos à saúde, se o visitante agir de forma imprudente. Cuidado, por exemplo, para não pisar em uma cobra ou colocar a mão em lugares onde aranhas, lacraias e escorpiões costumam ficar, como em troncos de árvore, sob folhas ou entulhos. Buracos no solo ou em árvores também podem servir de moradia a esses e outros animais.

Algumas dicas:

    1. usar roupas que protejam contra picadas de insetos: o uso de calça comprida, botas altas ou tênis até o tornozelo é a melhor opção;

    2. em caso de picada de cobra, aranha, lacraia, escorpião ou qualquer outras que provoque reação, procurar imediatamente um hospital especializado. É importante saber descrever o animal ou, se este morreu, levá-lo consigo;

    3. tenha cuidado quando caminhar pelas trilhas do Parque, mantendo a visão voltada para pelo menos 2 metros a sua frente, no leito da trilha, a fim de poder visualizar a presença de uma cobra;

    4. lembre-se de que o bote de uma cobra alcança somente a distância relativa a um terço do comprimento de seu corpo;

    5. nunca procure uma gruta para acampar. Tais locais são habitat de cobras;

    6. afastem-se dos rios ao anoitecer. Lembrem-se de que as margens dos rios são muito procuradas pelas cobras para caçarem rãs ou sapos.



Hospitais / Centros de referência em animais peçonhentos

Em caso de picada de animal, recorrer imediatamente a um dos hospitais abaixo.

    • Hospital Municipal Lourenço Jorge/ Núcleo de Epidemiologia Av. Ayrton Senna, 2000, Barra da Tijuca. Tel.: (021) 431 1818, r. 299.

    • Hospital Municipal Souza Aguiar Praça da República, Centro. Tel.: (021) 296 4114.

    • Hospital Municipal São Sebastião R. Carlos Seidel, Caju. Tel.: (021) 580 0868.

    • Hospital Universitário Clementino Fraga Filho / UFRJ Centro de Informações Tóxico-Farmacológicas do Rio de Janeiro.
    Av. Brigadeiro Trompovsky, s/n. UFRJ - subsolo, sala SSNO2, Ilha do Fundão. Tel.: (021) 564 2010/ 270 6893.


BIBLIOGRAFIA

* Bandeira, Manes - Parque Nacional da Tijuca
* Cartilha de Educação Ambiental do Parque Nacional da Tijuca -IBAMA