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Café
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O café e a Floresta da Tijuca
Nenhuma outra planta pode ter tido tanta importância para o Parque Nacional da Tijuca (PNT), como teve o cafeeiro (Coffea arábica), esta que é uma planta da família das Rubiáceas, originária do Norte da África, mais precisamente da Etiópia. Adaptou-se bem ao nosso país, produzindo frutos durante vários meses do ano, desde o norte até o sul do país, em qualquer tipo de solo, a pleno sol ou à sombra de outras plantas, podendo viver por até 100 anos de idade.
Para o país, o café teve uma importância muito grande, pois além dos recursos diretos trazidos para a nossa economia, possibilitando a criação de uma organização social mais estável daquela existente, no ciclo da cana, fixando o homem na terra. Isso se deveu ao fato da colheita dos frutos exigir um maior emprego de mão de obra e ao mesmo tempo mais especializada.
A cafeicultura valorizou a terra potencialmente agrícola, atraindo imigrantes, que se estabeleceram definitivamente, adotando o Brasil como sua pátria, desenvolvendo inclusive outros tipos de culturas. Até então, vir para o Brasil era uma experiência encarada somente por desajustados e aventureiros destemidos em busca de riquezas fáceis.
Ele possibilitou também a criação de uma malha férrea para escoamento da produção, que mais tarde viria a originar cidades. Em resumo, transformou o país numa potência econômica na época.
O cafeeiro tem em suas folhas maior concentração de cafeína do que nos grãos, apesar disso somente os grãos são produto de comércio, de onde se faz a bebida mundialmente conhecida, que é tida como energética, cardiotônica e estimulante, agindo diretamente no sistema nervoso central, sendo em alguns casos, tanto o café como a sua borra, utilizados como antídoto para envenenamento causado por drogas dopantes.
A cafeína é uma purina, na qual fazem parte a teophiilina e a teobromina, esta última encontrada no chocolate, cada molécula contém 4 átomos de nitrogênio na sua estrutura, não sendo de estranhar o seu valor energético, pois é necessária muita energia para a quebra correspondente a 2 moléculas de N₂ provenientes do ar atmosférico.
Além disso, as purinas têm estrutura semelhante à guanina, que entra na composição do ATP (Adenosina Trifosfato), que é o combustível dos seres vivos, produzido pelas células através da respiração celular.
É planta por demais generosa em vários sentidos, não somente para os homens, mas também para os animais, seus frutos (a parte vermelha externa que envolve os frutos), são ricos em glicídios e provitamina A, e muito apreciados por diversas aves, entre elas, sanhaços, sabiás, tangarás e tiés.
Em reflorestamentos ecológicos o cafeeiro pode e deve ser utilizado, especialmente em áreas muito degradadas onde há pouca diversidade de espécies, pois é uma planta que tolera facilmente a convivência com outras nativas, produzindo frutos por longo período de tempo, auxiliando no fechamento do ciclo alimentar de vários animais e envolvendo outros nesse processo.
O café na natureza, com o passar do tempo, vai sendo substituído por outras rubiáceas nativas trazidas pelos animais que dele se alimentaram, até o seu desaparecimento total, após algumas décadas. O único inconveniente no seu plantio é o alto índice de ataques que as mudas pequenas sofrem, pelas formigas saúvas, que retardam o seu desenvolvimento.
Na nossa cidade, o café iniciou sua história em 1770, quando foi introduzido por J.A.Castelo Branco, mas foi entretanto no ano de 1810 através do Conde Gestas que a cafeicultura tomou maior impulso, atraindo a atenção da nobreza que passou a investir na nova atividade que prometia ser o grande negócio da época, fato que também provocou a derrubada da floresta.
Rapidamente a cultura do café prosperou, expandindo-se rumo ao interior, irradiando-se ano após ano pelas terras vizinhas por onde passava, chegando a Campinas onde o solo e relevo eram bastante propícios para a atividade, e que em pouco mais de duas décadas, em 1834, passou a ser novo pólo da cafeicultura na época, chegando ao ano de 1880 até Ribeirão Preto, que se tornaria o “novo eldorado” do café.
Em Campinas, o café prosperava, enchendo os cofres do Império, para termos uma idéia à produção do Espírito Santo e de São Paulo eram superiores em 2,5 a 3,5 vezes que a da Cidade do Rio de Janeiro, onde o solo e o relevo, eram menos propicio à cultura e a idade das plantas de aproximadamente de 30 anos, já se encontravam em franco declínio de produção. Em 1843, no Rio de Janeiro, nos sítios e fazendas que hoje fazem parte a Floresta da Tijuca, os cafezais foram atacados pelo mal da “borboletinha”, desvalorizando as terras pertencentes na sua maioria a homens da nobreza, entre eles Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá.
Não tardou para que os efeitos produzidos pela da devastação da floresta em substituição ao café, se refletissem nos mananciais que abasteciam a cidade, motivando uma reação popular em prol das desapropriações dessas terras situadas na área do atual PNT, já que medida semelhante havia sido tomada em 1819 nas nascentes do rio Carioca, situada nas Paineiras e Silvestre e os resultados desse trabalho eram animadores.
Com o resultado positivo dessas desapropriações e com o capital proveniente das culturas do café em outras regiões do país, D. Pedro II tinha argumentos bem fortes para que as desapropriações fossem feitas também no Alto da Boa Vista, fato que se deu em 1861 com a criação da Floresta Nacional e o início dos trabalhos de reflorestamento que deram origem a atual Floresta da Tijuca.
Por uma ironia do destino, a cultura do café, que em parte destruiu a floresta, foi a que possibilitou arrecadar recursos para as desapropriações das terras ocupadas pelos sítios de café, onde hoje está situada a maior floresta urbana do mundo.
Erico Dalmau
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